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10 de julho de 2014

Deus, o diabo e a "A Máquina de brincar".



Publicação de Janilda Prata na íntegra:

“Você acha que os seus filhos estão seguros no quarto lendo livros? Leia o que aconteceu com a minha família: Todos sabem como incentivo a leitura para minhas filhas desde bebê. O contato das crianças com os livros passa por várias fases. Primeiro eu lia para elas, depois eu lia com elas e hoje elas leem sozinhas. Na hora de comprar um livro eu olho a capa, o tema, a sinopse, sobre o autor e a faixa etária. Depois peço que elas me falem sobre o que leram. Achei que isso era mais do que suficiente até o dia em que a minha filha Ana Ester, de nove anos, me disse: ‘Mãe, tem algo errado com esse livro, no meio dele encontrei uma página com o título para ler no escuro e depois coisas horríveis… ‘Me desculpe o autor, mas se alguém torna uma obra pública, eu tenho o direito de criticar e emitir minha opinião. Um livro para criança que invoca o diabo para ser seu amigo, diz que Deus não aparece porque é covarde e pequenino, e termina dizendo que o capeta venceu, para mim é uma literatura totalmente imprópria. Não venha me dizer que isso é poesia. Isso, para mim, é pura heresia. Estou indignada por ter colocado algo assim na minha casa e nas mãos das minhas filhas. Que critério usar quando compro livros infantis? Vou ter que ler antes todas as páginas? Como algo assim pode ser liberado para publicação e considerado literatura infantil?”. (Janilda Prata)


Recebi esta mensagem por e-mail, recebi inbox no Facebook, compartilharam na minha página, me cutucaram, me questionaram e depois de muito relutar, eis a minha singela opinião sobre o Livro A Máquina de Brincar (Bertrand Brasil, 2005; adotado pelo Governo do Estado de São Paulo através do PNLD).

Este livro é dividido em duas partes, "Para Ler no Claro" e "Para Ler no Escuro". Segundo os sites que pesquisei é um conjunto de 25 poemas para rir e bater os dentes de medo na segunda parte. Metade do livro está em páginas brancas e a outra metade em páginas negras.


O autor desta obra adotada pelo Governo paulista é Paulo Bentancur, que nasceu em Santana do Livramento, RS, em 1957. Trabalha como crítico e escritor, e escreve gêneros variados, do infanto-juvenil à poesia. Foi coordenador do Livro e Literatura da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre. Já tem contos publicados na Argentina e na Itália. Ganhou cinco prêmios Açorianos, um deles, para Três pais (Infanto-Juvenil lançado pela Editora Saraiva). Costuma ministrar oficinas de criação literária e de leitura crítica para educadores online e individuais.

Betancur já está na área literária há anos, seja trabalhando em diversas editoras como revisor, preparador de originais, tradutor do espanhol e editor assistente; ou como autor. Atualmente presta serviços de assessoria editorial para diversas casas publicadoras.

No entanto, nunca falaram tanto em seu nome ou o citaram em Redes Sociais e na imprensa escrita como agora. Janilda Prata em seu perfil do Facebook postou a mensagem postada no início deste artigo e fotos de algumas páginas do livro de Betancur, expressando sua indignação e revolta pelo que suas filhas leram. O livro foi comprado pelo pai e as meninas liam sozinhas, até que uma delas chamou a atenção da mãe dizendo que deveria ter algo errado com aquele livro. Quando Janilda leu junto com a filha percebeu as mensagens ocultas que o dito livro de poemas expressava.

Já são mais de 48.000 compartilhamentos e as mães estão revoltadas nas Redes Sociais. O autor acabou sendo chamado por alguns representantes da imprensa para se expressar sobre o assunto.

Vejamos o que Paulo Betancur afirmou ao Jornal de Brasília:

“Quis fazer um livro diferente. As crianças de hoje são inteligentes, gostam de suspense, de figuras lendárias. E qual o problema de brincar com Deus e o diabo? Não faço apologia ao demônio, apenas brinco com o lado bom e o lado mau das coisas”.

Isto é, para o autor, o que houve foi uma mistura de religião e a arte, em que a liberdade dos artistas e escritores estão sendo alvo de críticas, porque muitas vezes fazem apenas uma “brincadeira”. Só que Betancur não se deu conta que a grande massa cristã é que compra livros no Brasil.

Não demorou muito e Janilda Prata expressou sua opinião perante a afirmação do autor:

"Me desculpe o autor, mas se alguém torna uma obra pública, eu tenho o direito de criticar e emitir minha opinião. Um livro para criança que invoca o diabo para ser amigo da mesma, diz que Deus não aparece porque é covarde e pequenino e termina dizendo que o capeta venceu para mim é uma literatura totalmente imprópria", declarou.





E essa história está longe de acabar. Os compartilhamentos continuam, as mães continuam deixando comentários na página pessoal de Janilda Prata e, agora, com a repercussão, na página VIGILANTES DOS PEQUENINOS.

Realmente, lendo as páginas postadas, nós, mães, percebemos que o autor não fez brincadeira alguma. Ele afirmou coisas e induziu seus pequenos leitores a uma viagem muito tenebrosa. Invocar o diabo em tão tenra infância não é algo que mãe alguma queira a seus filhos. Eu sou contra massacrarem o livro. Para mim, livro é para ser lido, seja evangélico ou não. Desde que se respeite a faixa etária de cada criança, o que me parece, não foi respeitada neste caso em específico. Aqui em casa, lemos de tudo e acreditamos que é lendo que construímos uma mente sadia em Deus para perceber o mal e nos afastar dele.

Meu questionamento é, se se pode falar do Diabo e enaltecê-lo fazendo chacota de Deus, podemos ter o direito de ter livros que enalteçam a presença da Palavra de Deus na vida de cada criança brasileira no âmbito escolar. No entanto, a questão não é o que os seus filhos estão lendo na escola? A questão não é o que os seus filhos estão lendo em casa? Para nós, a questão é... Onde você está quando seu filho está lendo? O que você tem comprado para ele tem objetivo? Quando você para numa livraria, na Bienal ou numa feira de livros, compra porque está barato, porque a capa é bonita, porque sua criança pediu ou porque você acredita que poderá fazer parte deste crescimento intelectual e crítico dela? Quando ele recebe um livro ou indicação de leitura na escola, você se preocupa em conhecer essa literatura?

Estas perguntas podem e devem nortear a mente de cada pai e mãe neste país. O benefício de uma boa leitura é evidente nos pequenos. Devemos mesmo incentivá-los a ler, mas tenho que afirmar que mesmo sendo um livro com questões subliminares em seu conteúdo, A Máquina de brincar é um livro que merece ser lido. Claro, junto com os pais, para que possam orientar seus filhos a entenderem que existe o bem e o mal e que precisam estar alertas e perceberem quando devem refutar ensinamentos errados.

Com certeza, as páginas pretas e textos como "O Diabo que me carregue" são coisas inaceitáveis e não podemos mesmo nos calar. Só que nossos filhos não viverão para sempre só com pessoas que acreditam em Deus. Estarão o tempo todo sendo aliciados por questionamentos sobre a existência de Deus, perante os que não seguem a mesma religião.

Textos como: “Sossega! Vão falar mal aqueles que não estão contigo. Que não foram convidados pelo diabo, meu grande amigo”, como está escrito em um dos trechos do livro, afrontam e irritam qualquer pai cristão. Não podemos aceitar um livro que invoca o diabo a ser amigo de uma criança. No caso, nossos filhos! Entretanto, a questão aqui não é religiosa! A questão aqui é educacional e de faixa etária.  Quer dizer que meu filho, aos nove anos, pode ler um livro desses na Sala de Leitura, mas não pode ler um livro de evangélico?

A verdade é que jogar o livro na fogueira não funcionará nada. Sinceramente, esta é minha opinião e não quero aqui levar ninguém a pensar igual, mas diante de tantas pessoas pedindo uma posição de nosso blog perante o assunto, eis aí:

O que desejamos é que os pais, assim como nós fazemos aqui em casa, avaliem o que o filho vai ler. E caso a criança leia, que eles mostrem o lado positivo e questionem o que acham que é errado. Nós incentivamos a leitura aqui em casa independente de ser cristã ou não. Juntos, debatemos os livros. Acreditamos que a melhor coisa é o debate. Assim como todos fazem agora com A Máquina de Brincar de Paulo Betancur, nós estamos, neste momento, aqui em casa, fazendo com o livro Truques de Mágica de Marc Dominc (Ciranda Cultural, 2013). Livro que nosso filho mais velho pediu para comprarmos. 

Para finalizar, assim como começamos com um texto de Janilda Prata, terminamos com outro texto dela em resposta a entrevista concedida pelo autor ao Jornal de Brasília.

Resposta de Janilda Prata à entrevista concedida pelo Paulo Betancur ao Jornal de Brasília:

“Estamos em uma país livre e o referido autor, assim como qualquer outro pode escrever e publicar o que quiser, eu também gozo desse direito. A questão é mascarar o conteúdo do material publicado com uma capa que diz literatura infantil.

Eu comprei algo que achei que era revisado por pedagogos, que era bom para o desenvolvimento das minhas filhas, acreditei na imagem e nas informações que me passaram. Se tivesse na capa "Piada leve sobre Deus e o Diabo" ou algum tipo de censura, eu não havia adquirido.

Não misture o fato de eu ser evangélica com essa questão. Não se trata de religião, pois não cresci em um lar evangélico, mas mesmo assim meus pais sempre me ensinaram o Pai Nosso, a respeitar os mais velhos, meus professores, meu próximo, amar todos sem discriminar, cuidar dos desamparados, ser honesta, priorizar a família. O que estou defendendo aqui é o direito de criar minhas filhas com princípios e valores que a ajudem a distinguir o bem do mal. Trabalho na área de educação, mas não analisei como profissional, pois acima de tudo sou mãe e nenhuma mãe quer que o filho brinque de ser amigo do diabo.
Aliás, gostaria de lembrar que não fui eu quem viu o conteúdo do livro e censurou, foi minha filha de 9 anos e ela já leu centenas de livros. Isso significa que ensino corretamente as minhas filhas a distinguir o bem do o mal, o certo do errado. 
Basta colocar uma tarja preta na capa do livro "PROIBIDO PARA MENORES" e o problema está mais que resolvido.
Janilda Prata

(Publicado na página Vigilantes Dos Pequeninos no Facebook).


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8 comentários:

  1. Esclarecedor seu texto. O que gera indignação nesse livro é a relação da sua apresentação e seu conteúdo. Expõe-se algo com capa sem grande informações, é rotulado como literatura infantil, embora seu conteúdo seja TOTALMENTE incoerente. O que se vê claramente nesse caso é um exemplo de negligência da editora, das livrarias e de inquestionável falta de comprometimento do autor e seu público alvo. A criança, a quem se destina a literatura rotulada como INFANTIL, não pode ficar exposta a esse tipo de manipulação, pois a criticidade que se espera ser construída por ela , não está permeado só no conteúdo dos versos (de péssimo gosto e de pobreza INEGÁVEL, aliás). Vai além e extrapola ao campo das imagens e da coerência de seu gênero, objetivo, etc. Há quem defenda a ideia de que pais responsáveis leem os livros que comprar para seus filhos. Realidade: ninguém faz isso. O que se faz é o mesmo que qualquer consumidor faz: busca-se no livro alguns dados resumidos do Autor e da SINOPSE. Ah, sim! A SINOPSE! A sinopse do livro é TOTALMENTE INCOERENTE com seu conteúdo! Isso é um ABSURDO! Não deixa claro nem 0,5% do que existe realmente nas páginas macabras do livro. E defender tanto autor como editora é ser conivente para que exemplos INFELIZES como esse se repitam e tornem-se cada vez mais comuns. ABSOLUTAMENTE RIDÍCULO.

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    1. Oi Natanael Zotelli. Muito boa a sua observação. No entanto, não sei os outros pais, mas nós lemos os livros antes de dar ao nosso filho e debatemos com ele sim. Gostei de sua colocação em relação a SINOPSE. Vou averiguar quando conseguir comprar o livro. Como eu disse no texto, não defendemos o uso do livro como Didático e nem pela faixa etária. A editora e seu autor erraram feio na publicação. Este texto é apenas uma opinião pessoal. Publicada aqui há pedido de vários amigos e leitores. Eu ainda não consegui ler o livro na íntegra, mas quero ler sim! Não o promovo e nem indico. É um livro INFELIZ mesmo! Pena que nem todos os outros livros já publicados com tantas heresias afins tomaram a proporção que este tomou. Talvez, assim, esse nem tivesse sido publicado.

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  2. veja o texto que está no se próprio blog:
    Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor. (Estatuto da Criança e do Adolescente - LEI Nº 8.069, DE 13 DE JULHO DE 1990.)
    isso é uma violência contra a criança

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    1. Agradeço a lembrança, mas violência contra criança vai muito além de ler um livro que esteja longe do que consideram ideal para ela.

      "Para nós, a questão é... Onde você está quando seu filho está lendo? O que você tem comprado para ele tem objetivo? Quando você para numa livraria, na Bienal ou numa feira de livros, compra porque está barato, porque a capa é bonita, porque sua criança pediu ou porque você acredita que poderá fazer parte deste crescimento intelectual e crítico dela?"

      Eu li o livro com meu filho mais velho e o ensinei a perceber as coisas que nos confrontam no livro. Hoje, ele tem 11 anos e continua servindo a Deus e muito mais fervoroso que antes.

      Livros são para serem lidos e para serem avaliados por quem lê. Se a criança não tem idade para lê-los, que os pais os acompanhem e os oriente.

      Mesmo assim... Obrigado por seu comentário.

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  3. Olá boa tarde.
    Que pena que o livro ensina as crianças a crer e fazer amizades com as figuras macábras, negativas...
    Que pena que o autor, não pensou nas crianças que vivem com os avós e até mesmos pais que não sabem ler e não sabem explicar para os filhos o significado do mal que permeia o mundo. Vivemos em uma sociedade tão acelerada, que a escola apresenta o conteúdo e muitas vezes não conseguem aprofundar o sentido e significados dos valores de um "amigo" de guampas"...
    Parece-nos que vivemos num espaço que não tem a quem recorrer para educar para os valores, pois até as leituras motiva a ter certos amigos que não são de valorizar o que é mais primordial na vida que a AMIZADE...att,

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    1. Ótima colocação! É uma pena! Boa lembrança: "crianças que vivem com os avós e até mesmo pais que não sabem ler". Realmente, neste ângulo é impossível olhar o livro apenas como livro. Obrigada pela participação.

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  4. laguem tem que scanear esse livro e criar uma versão em pdf dele

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    1. Tomara que não Cleydailton, mas... Acredito que já tenha.

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